Nada de entrevistas, conversas ao pé de ouvido sobre assuntos do Congresso ou uma ampla base de apoio com esquerdistas históricos e fisiológicos notórios. Antes de o escândalo do mensalão ser detonado, há exatos cinco anos, era esse o perfil do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto. Para chegar hoje a quase 80% de aprovação popular, ele precisou abandonar o isolamento e se expor.
Para analistas políticos, o escândalo denunciado em 6 de junho de 2005 serve como um divisor para o governo Lula, que até então concentrava as decisões políticas nas mãos do então ministro da Casa Civil, José Dirceu, dragado pela crise após as denúncias do presidente do PTB, Roberto Jefferson. O petebista acusou o petista de chefiar um esquema de compra de apoio político no Congresso – Dirceu nega.
“Sem dúvida o mensalão mudou a relação de Lula com os políticos e alterou a forma de ele se comunicar com o povo” conta essas notícias o professor David Fleischer, da UnB (Universidade de Brasília). “No fim do ano do escândalo, quando a aprovação do presidente caiu nas pesquisas, ele teve de se abrir. E se recuperou lentamente.”
Os números indicam isso. Em dezembro de 2005, diz o instituto Datafolha, o governo Lula era ótimo ou bom para 28% da população – o menor nível desde seu primeiro dia no Palácio do Planalto. A mudança de postura mostrou resultados: no ano seguinte, mesmo perdendo seu ministro da Fazenda, Antonio Palocci, para outro escândalo, o presidente foi reeleito com 53% de aprovação popular. Por conta da crise do mensalão, deixaram seus cargos dois ministros: Dirceu e Luiz Gushiken (secretário de Comunicação). Membros da cúpula do PT, incluindo o presidente José Genoino e o tesoureiro Delúbio Soares, renunciaram. Parlamentares e dirigentes de estatais se afastaram. O esquema de repasses pelas empresas de Marcos Valério acabou.
O Ministério Público denunciou ao STF (Supremo Tribunal Federal) em abril de 2006 mais de 40 pessoas envolvidas com o mensalão. O procurador-geral da época, Antonio Fernando de Souza, se referiu ao grupo como "organização criminosa". A mais alta corte do país ainda não se pronunciou sobre o caso.
Antes do escândalo, aliados do presidente diziam que o acesso era limitado. “Até esse incidente eu via Lula uma vez por mês. Sei que a agenda de presidente é sempre apertada, mas mesmo em evento público ele saía rápido, não dava tempo. Depois o contato passou a ser mais frequente, eu não tinha mais de ir à Casa Civil para ser atendido”, disse um político do PCdoB que preferiu não se identificar.
Cinco anos depois, a ascensão de uma ministra de perfil técnico, hoje presidenciável, a escolha de um jornalista de renome para integrar o governo e a maior disposição do presidente de usufruir de sua capacidade de diálogo direto com o povo integram o caldeirão de elementos que revigoraram a gestão petista, segundo Fleischer. “Sem isso, talvez ele fosse reeleito da mesma maneira. Mas é fato que o jeito mudou.”
Influência
Hoje, a aprovação popular do governo, sempre de acordo com o Datafolha, é de 76%. Êxitos internacionais e a forma saudável da economia contam para o status do presidente e serviram até agora para impulsionar a pré-candidatura de Dilma. Apesar de ser sua primeira eleição e de o adversário, o tucano José Serra, ser mais experiente nessas disputas, ambos já aparecem empatados nas pesquisas de intenção de voto.
Primeiro presidente do PT eleito depois da crise, o deputado Ricardo Berzoini (SP) diz que o mensalão não tem influência direta para o aumento da popularidade de Lula, mas admite que depois das descobertas sobre o esquema de compra de apoio político no Congresso “ficou claro que a ação política deveria ser mais esclarecedora”.
“O governo levou um tempo para reagir de maneira clara. Houve um momento fragmentação e crise do partido. Mas após a tomada de consciência sobre o que estava em curso, a tentativa da oposição de inviabilizar o governo, ficou notório que deveríamos fazer isso, sem nos esquecermos das ações governamentais.”
Marcello
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